virar adulto é aprender a lidar com o fato de que as coisas passam
Se tornar adulto, entre uma miríade de novas responsabilidades e afazeres, é também aprender a lidar com novas sensações. E a sensação de pressa, de impaciência e de vertigem é o que mais está me marcando nessa transição.
Não sei se é porque eu estou me tornando adulto nas terras áridas da grande São Paulo. Mas, de qualquer modo, não consigo me desvencilhar do tempo que corre por entre os dedos da minha mão.
Antes, eu tinha uma certa percepção de que os ponteiros do relógio se moviam, ou que os dias do ano mudavam e os meses iam passando. Esperava com ansiedade o Natal e o Ano Novo como espaçonaves que pousam de repente na Terra, sem aviso prévio. Passava setembro me lamentando dos dias que se demoravam e do sentimento de um cotidiano parado.
Hoje, em comparação, sinto que amanhã já será o fim do ano. Não mais como uma espaçonave que chega do espaço, mas como um trem que para na estação. Mesmo olhando para meu calendário e percebendo que a semana passada já não faz um mês, é assim que me parece. Com tantas coisas pra fazer, tantos desejos e vontades que queria ter realizado neste ano, parece que a minha deadline já passou.
Entre lavar roupa, estudar, trabalhar, comer, dormir, falar com as pessoas, tudo vai se tornando cada vez mais limitado em uma rotina que não tem pausas. Para racionalizar todo esse “tempo perdido”, vamos esquecendo que ele sequer passou. Com isso, vão também se racionalizando momentos preciosos de um dia-a-dia monótono: pequenas vitórias, trocas honestas e profundas, lapsos de aprendizado.
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Olho com saudosismo para a época em que via o ponteiro contar cada segundo. Uma época em que parar no balcão da cozinha com um copo d’água na mão não era um luxo ou uma necessidade, mas mera expressão da monotonia e do tédio. Agora, são muitas notícias, muitos trabalhos, muitos textos, muitas entrevistas, muito barulho para ouvir o tique-taque dos minutos passar.
Nem toda criança consegue passar a sua infância ouvindo os relógios. Assim como muitos adultos vivem os seus vinte a trinta anos sem nunca se preocupar com o que está passando. Por isso, começar a perceber o tempo não é necessariamente um sinal de que se está envelhecendo, mas que se está amadurecendo.
Grande parte disso é por se criar um passado, um passado que significa algo mas que ainda está ficando para trás. Mudar da escola para a universidade, trocar uma cidade por outra, mudar de amigos e perseguir novos objetivos na vida. Isso não é uma simples mudança, é uma revolução completa.
É a construção a partir da demolição. Enquanto se erguem paredes de uma nova fundação com novos relacionamentos, novo cotidiano, novas percepções, parte da construção antiga ainda está ali, meio capenga, mas de pé, esperando para ser demolida. Ao mesmo tempo que construtores passam freneticamente para consolidar uma nova moradia, ficamos ali, como bobos, distraídos com os escombros do passado.
Parece que eu desprezo as coisas que passaram, que acredito que todas as coisas acabam. Mas também não é bem assim. Tenho amigos que com certeza vou manter, hábitos e percepções de mim mesmo que não vão se esgotar tão cedo. Mesmo assim, sei que nunca voltará aquele aniversário, ou aquela época em específico. E entender isso que é tão devastador.
Sei que, na minha vida, terão momentos que ainda vou pensar: “como era bom o tempo da faculdade.” E saber disso é devastador. Meu olhar para os amigos de agora, para as relações de agora, já não é mais com o ineditismo e frescor de antes, mas precocemente contaminado pelo preto e branco da memória.
Momentos marcantes e felizes rapidamente se tornam memórias, porque sei que aquela sensação boa vai passar. E, nessa ânsia de perdê-la, quero tentar eternizá-la enquanto posso. Não é ruim ter consciência do passado ou a possibilidade de um futuro, mas, tê-los ao mesmo tempo é uma receita fácil para um choque.
Enfim, “como lidar com o fato de que as coisas passam?”, ainda não sei. Ainda sinto que o presente está constantemente se transformando em passado, e que o futuro já está presente. Mas pelo menos sei disso com consciência do meu problema. E, para amadurecer com esse fato talvez só seja preciso aprender a conviver com ele. Talvez não pra sempre, mas por um bom tempo.
As coisas passam, boas ou ruins, e a gente nem vê mais. Isso é se tornar adulto: entender que o passado, uma hora, tem que existir. A nostalgia talvez seja o primeiro tesouro que ganhamos junto ao baú da maturidade. Não podemos voltar para trás, mas podemos olhar ele de cima das nossas vidas sempre em movimento, como um carrinho de rolimã descontrolado por uma ladeira íngreme e sem acostamento. Crescer é saber deixar o passado para trás. Ou, como diria Paul McCartney:
“I feel like letting go”.

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