luto

 11/01

Início da tarde


A minha tia acabou de morrer em consequência do câncer de pâncreas que ela descobriu no ano passado. Até dois dias atrás estava tudo bem, ou quase, ela se sentia melhor porque trocou de médica e ia começar uma nova quimioterapia. Ela começou o ano com esperança.

O luto é um sentimento estranho. Ele se manifesta das maneiras mais tradicionais para algumas pessoas mas das maneiras mais anormais para outras. Eu não entendia, e ainda não entendo, tudo o que eu sinto em relação à morte dela. Eu chorei um pouco, mas eu não entendi. Até agora eu não sei se a ficha realmente caiu.


Tudo o que eu consigo pensar é que eu nunca mais vou ver ela. Ninguém nunca mais vai ver ela, em vida pelo menos. Eu não esperava que fosse acontecer tão rápido. Acho que todo mundo esperava de alguma forma que talvez ela morresse, e que em muitos momentos ela estava mais próxima da morte do que da vida, mas eu não pensei que realmente fosse acontecer assim. Qualquer que fosse o momento, teria sido muito cedo. Ela poderia durar anos e mais anos e ainda seria muito cedo.


Eu via ela algumas vezes por ano, no máximo. Nada muito frequente. Porque a gente sempre morou longe e muitas vezes que encontros eram possíveis ela estava trabalhando ou ocupada. Ela sempre esteve muito ocupada, se não com peças ela sempre tinha um amigo pra ver, algum encontro, alguma saída marcada de última hora.


Nesse sentido, ela não era a pessoa mais confiável do mundo. Planos sempre podiam ser remodelados, cancelados ou desorganizados. Alguma outra pessoa sempre podia aparecer de repente e isso mudaria todo o planejamento para a noite. Nunca foi algo que me estressou, em particular acho que porque tudo nela era tão maravilhoso para mim. 


Uma vida feita de arte, tantas amizades e tanta ação, tão diferente da vida normal que todos os outros levam para si. Ela construiu uma carreira mas também construiu ela mesma. É surpreendente, sempre foi, e sempre me surpreendeu, fosse como uma criança ou mesmo hoje. As produções que ela fazia, os apartamentos alugados no Rio e em São Paulo, a vida cosmopolita, a dramaticidade das pessoas, a capacidade de atuação.


Em muitos sentidos, eu queria ser que nem ela. E me aproximei disso o máximo que eu conseguia. Também atuei, também busquei além daquilo que me era dado como garantido, mas nunca como ela fazia. Porque para ela parecia fácil, aquele mundo espetacular nunca foi fruto de um esforço contra a ordem das coisas, ela acabou onde ela deveria estar, onde a sua personalidade e a sua pessoa a levaram, sempre com a leveza de não contrariar os próprios desejos e com a força de fazer cumprí-los.


Você nunca teve medo de viver, você sempre teve a coragem de chegar aonde você sempre quis. E, nesse caminho você foi você mesma, você encontrou quem te adorava por quem você é, sempre com a leveza de uma folha levada pelo vento, sempre com a coragem de quem nao se intimida com o rumo e a força da correnteza.


Eu ainda não entendo o que aconteceu, eu ainda não entendo que nunca mais vou te ver. Mas fico feliz com o que você me ensinou e com todo o amor que você sempre me deu. Talvez eu não estivesse lá toda a hora, nem você, mas são os rumos da vida, e nem por isso eu te amo menos do que eu te amo. Porque eu sei que todo o seu talento e toda a sua paixão não cabem em uma só pessoa, mas em várias que você encontrou pelo caminho.


Deveria ter falado mais isso, como você sempre falou. Ter compartilhado de mais momentos em que, no meio da fúria das nossas vidas, você tentava nos ensinar como agradecer e como compartilhar. Por mais que te considerassem ingênua ou inocente, isso é quem você sempre foi, e foi o que te levou a ser a pessoa maravilhosa que você conquistou para si. Vai ser o que faltará nas próximas Ceias de Natal, nos próximos encontros de verão. É o que sempre nos marcará pela sua ausência.

Não sinto vontade de chorar quando penso no que me deixou. Mas eu poderia me acabar apenas pensando em todas as pessoas que te amam agora. Meu luto não é meu. Meu luto é pelas suas irmãs, pela minha mãe. Meu luto é pela sua mãe, minha avó. Meu luto é pelos seus sobrinhos, meus primos, é pela a minha irmã. Meu luto é por quem você amou como sua família, é pelo César, é pela Bia. Meu luto é pelos seus amigos, seus companheiros de cena. Meu luto é por todas as pessoas que te amaram e você amou de volta.


Espero que você esteja melhor,

Te amo,

Bernardo.


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