Feliz Ano Novo!!


 31/12

Noite

Eu estou entediado. O que é bom. Não é um tédio vulgar, de se deitar na cama o dia todo vendo vídeos no celular ou algo do tipo, é um tédio bom. Eu acabei Mr. Mercedes hoje, o primeiro da trilogia protagonizada pelo moderno detetive-caubói que já esqueci o nome (Hodges). É um bom livro, instigante, interessante, e com certeza me gerou um bom entretenimento nos dois dias e meio ou três dias que duraram a minha leitura. As férias estão sendo boas, “reprogramando” meu cérebro, como os livros de autoajuda e os coaches do youtube pregam. Li um total de dois livros até agora, o que pode não parecer muito, mas é uma média de um por semana, o que já bate, por muito, a média que tive ao longo do ano. Não foram livros simples também, embora não fossem exatamente complicados. O primeiro foi Pachinko, da sul-coreana Min Jin Lee. É um livro grande que eu terminei em dois dias, já me gabando, mas talvez isso seja um mau sinal. Os indícios da minha possível grave doença se agravam com Mr Mercedes, do ultra-americano Stephen King, que li em cerca de dois dias e meio, como já descrevi. Este a dificuldade foi por uma barreira linguística, uma vez que li o livro em inglês, que, embora não seja a minha primeira língua, ainda sou fluente. Mesmo assim, fazia muito tempo que eu não praticava a leitura na língua, o que me gerou certa dificuldade, que foi superada com a incrível capacidade de narração do Sr. King. De maneira ou de outra, eu terminei esses livros de mais de quatrocentas páginas com uma rapidez estonteante, o que tem lados positivos e negativos.


Positivos: eu voltei a ler, desencanei daquele livro de meditação que apenas não chamo de maldito porque realmente anda ajudando em alguma coisa, até que me sinto mais em paz, mais paciente e com mais tempo na minha mão, me sinto bem de ter lido mais dois livros antes do fim de ano e realmente parece que fiz um “detox” — novamente utilizando dos termos dos influenciadores e coaches digitais — da minha mente contaminada pela pressa, pela voracidade por conteúdo, impaciente e traumatizada.


Negativos: foi tudo muito rápido. São dois livros ótimos, e até por isso eu li eles em tão pouco tempo. O fator tempo, que atualmente tenho em minhas mãos, também ajuda bastante. Ainda assim, não consigo parar de sentir que eu poderai ter gastado um poruquinho mais de tempo. Talvez transitando entre as palavras e as linhas de cada capítulo, ao invés de correr para o fim da linha a fim de saber os próximos passos da história. Mas suponho que nenhum dos livros que eu li possuía beleza nas palavras --- especialmente o brutal vocabulário usado por Stephen King, que parece retirado exclusivamente de um urban dictionary datado eternamento em 2010 --- ambos focavam muito na narrativa, ou na história que acompanhava todo o livro, no caso de Pachinko. Ou talvez devesse ter tirado mais cochilos e pausas entre cada parte dos livros, ao invés de ler tudo de uma vez, um soninho ou outro não faz mal. Acho que meu medo é ter buscado por uma solução muito simples: achar que a leitura resolve todos os problemas de uma mente programada para consumir o mais rápido possível, um problema tão grande que chega a ser global, geracional.


Ainda assim, sinto certa diferença. Não é à toa que estou escrevendo agora. Claro, ainda há indícios da pressa pré-programado, como o fato de eu estar digitando um diário eletrônico ao invés de escrever o usual diário à mão, mas, a esse ponto, à três horas da chegada de mais um glorioso ano, eu já aceitei os fatos e disponho da miha mão com as ccartas que me foram entregues. Me sinto muito mais à vontade escrevendo em um teclado do que tendo que escrever delicadamente as minhas muitas ideais uma por vez no papel. Talvez fique mais bem escrito, mais bonito, com maior atenção às palavras, mas eu nunca vou conseguir guardar tudo o que eu quero dizer por tempo o suficiente. Diabo, não consigo nem escrever sem divagar com um teclado na minha frente. O ponto é que tem coisas que não vão mudar, e eu já aceitei isso de um jeito ou de outro, se eu fosse escrever tudo isso em um caderno, provavelmente já estaria de saco cheio, minha mão doendo e não teria colocado nem metade do que pensei até agora nas pequenas linhas da minha caderneta.


Mas ainda há coisas que eu posso mudar. Eu sei que aos poucos posso mudar a minha mente para me acalmar, fazer algumas coisas com mais calma do que outras, como cozinhar, por exemplo, que é uma das minhas metas para esse ano. Já tem outras que, sinceramente, porque ser tão conservador? O mundo está fadado a mudanças e ir com a maré não é nenhum erro, a menos que a maré seja um idoso americano que prega ideias fascistas para um mundo em colapso, é claro. Um bom sinal é que eu estou escrevendo esse texto, depois de tanto tempo sem escrever. Porque significa que eu estou tão incrivelmente entediado que prefiro ouvir a minha própria cabeça de maneira organizada e sistemática do que ver um vídeo no youtube sobre culturas de bactérias no estômago humano ou começar outro romance francês (realista, dessa vez, porque é bom variar de estilo).


A minha mente, como a mente de muitos outros da minha geração, foi programada para não entender o que é a felicidade. E é surpreendente o quão presente ela está no dia-a-dia, eu percebi isso essas férias. E mesmo percebendo tantas situações de bem-estar, não necessariamente eu fiquei feliz, isso é insano, doentio. Por exemplo, eu não me sinto exatamente em êxtase nesse momento, embora eu também não me sinta mal. Mas são 21:20 do dia 31 de dezembro, mais um ano vencido, e se eu não me sinto completamente vencido pelo ano que passou, eu provavelmente deveria estar feliz pelo ótimo ano que tive ou ao menos por ter vencido mais uma etapa da história. Eu me estressei pelas menores coisas esse ano, e continuo me penalizando um pouco por nada, mesmo que a minha punição seja só não aproveitar o momento que eu estou. Mas isso é da vida, sempre terão momentos bons e ruins e, na verdade, eu sei que isso não é um grande problema, logo volto a me sentir bem de novo. No final das contas, talvez todo esse pessimismo só seja São Paulo. 


Brincadeiras à parte, aquela cidade realmente está carregada dos mais fortes encargos e encostos espirituais, e também carregada de pessoas gentis (talvez o termo “carregada” seja um pouco forte) e novos amigos que sinto tanta falta. Ha! Que coincidência.


Feliz Ano Novo!


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