Michael: divertido, pop e... acabou?!
As duas horas de cinebiografia do Rei do Pop passam voando na tela do cinema, cobertas de entretenimento e nostalgia, mas pouco recheada de conteúdo.
Fazer uma cinebiografia (ou biopic, em inglês) não é uma tarefa fácil. Entre agradar os admiradores, evitar o anacronismo e resumir, em poucas horas, a vida de artistas brilhantes, é difícil fazer um produto que agrade a todos. Ainda assim, é sempre um bom anúncio. Michael (2026) chegou aos cinemas no final de abril, e eu apenas tive a oportunidade de assistir agora. Felizmente, consegui me blindar das opiniões alheias, e estava bastante animado para assistir à obra. Com certeza o filme não decepcionou, mas também não surpreendeu.
A primeira sensação é de que tudo acabou muito rápido. A escolha do roteirista John Logan de mostrar a ascensão de Michael e dos Jackson 5 até o lançamento do terceiro álbum solo e independente do artista, Bad (1987), não foi errada, embora pudesse ter sido melhor explorada. A rapidez do filme se dá, primeiramente, pela diversão genuína de assistir uma obra bem produzida. Mas será que escutar Off the Wall (1879), Thriller (1982) e Bad, em sequência, junto dos videoclipes, não resultaria no mesmo sentimento?
O filme ainda é bastante informativo. Para a geração mais nova (ou seja, a minha geração), a origem do cantor lendário pode passar desconhecida. Com o filme, que já faturou mais de 600 milhões de dólares desde o seu lançamento, a história passa a ser mais conhecida. Michael não é fruto de um gênio, mas de vários. A sua entrada na cena musical estadounidense foi com os seus irmões, na banda Jackson 5, onde estreou na indústria fonográfica pela primeira vez com o álbum Diana Ross Presents The Jackson 5 (1969).
Profundo, mas nem tanto, o filme aborda principalmente a relação de Michael com a família, e, consequentemente, com a banda. Toda a família, com exceção das mulheres, participavam do conjunto. Ou seja, Michael, os irmãos e o pai, Joe Jackson, que foi brilhantemente interpretado por Colman Domingo. Não se aprofunda na relação com os irmãos, mas passa a narrativa inteira retratando os conflitos constantes entre o patriarca e MJ, que nunca o chamou de "pai" durante toda a duração do filme.
Durante a infânica, foi tratado com abuso físico. Já adulto e às vias de se separar da banda familiar, foi tratado com abuso emocional. A tensão está presente durante todo o filme, e pode ser sentida a cada instante, sintoma de um bom roteiro e boa direção. Não à toa, John Logan e Antoine Fuqua, diretor do longa, possuem vasto histórico em filmes de ação, terror e thrillers (a piada já vem pronta!). Embora sentida, a tensão não é bem explorada em diálogos ou em cenas mais complexas. O deslize poderia passar despercebido em um novo remake de Alien, mas em uma biografia, deixa a desejar.
O filme é sutil, mas fico com a impressão de que é por fraqueza, e não por planejamento. Ao invés de uma boa conversa ou de um momento introspectivo do gênio do pop, a construção do personagem de Michael é como uma escada, marcada por momentos-chaves: shows, gravações e videoclipes. Tornando o longa sincopado e animado, como a própria música do astro. Mas não sei se foi a escolha certa para refletir a realidade da sua história.
Não sou especialista ou biógrafo, mas o próprio filme, nas entrelinhas, revela que havia mais a explorar. Cenas longas de apresentações e backstage alimentam a curiosidade do espectador e apelam para a nostalgia e para a música extraordinária do cantor, divertem mas ocupam um espaço que poderia ter sido melhor utilizado. A própria relação com o pai poderia ter sido melhor aprofundada: além da tensão onipresente, a relação entre ambos não é bem explicada e estruturada, sendo resolvida em cenas curtas, intempestivas e explosivas.
Posso listar ainda mais questões que foram tratadas com rasantes no longa: o isolamento social do Michael; a sua obsessão por animais, pela infância e por um mundo fantástico; a sua relação com os irmões mais velhos e mais maduros; a sexualidade; a dor e o vício nos analgésicos; a inspiração do cinema e desenhos animados; a caridade; o racismo e a sua autopercepção e identidade; entre outros temas. É óbvio que é impossível lidar com tudo em um único filme, ainda mais tratando de questões que foram dilemas emocionais durante toda a sua vida, mas o potencial estava no produto final, onde pode se observar faíscas de temas mais complexos que não foram alimentados.
Mesmo assim, o filme ainda deixa a reflexão na mente de quem assiste, com especial inflexão na família. Joe Jackson foi pai ou foi apenas um empresário? Ele queria o bem daqueles que amava ou apenas almejava o sucesso e o dinheiro? A maldade talvez seja apenas a vontade de não deixar os filhos viverem aquilo que ele viveu, por anos, como operário em uma sociedade racista. A resposta pode soar objetiva e esclarecedora ao final: o patriarca da família Jackson é o vilão. Mas não foi com esse pensamento que eu saí do cinema.
"Talvez nem tudo precise ser tão complexo, difícil ou profundo. A vida também pode ser pop."
É um longa expositivo, feito para dar algumas resposta e, principalmente, diversão para quem assiste. Não vá na expectativa de assistir Rocketman (2019) ou Bohemian Rhapsody (2018), está mais para um Yesterday (2019) melhor produzido e mais biográfico - filme que, devido à minha obsessão pelos Beatles, eu adoro. De forma alguma é um filme ruim, e, na possibilidade de uma sequência, irei ir aos cinemas feliz e animado. Há um potencial enorme em Michael, que é bem aproveitado da sua própria maneira. Talvez nem tudo precise ser tão complexo, difícil ou profundo. A vida também pode ser pop.
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